No sistema de saúde britânico, a palavra gatekeeper costuma ser associada ao profissional que organiza o acesso do paciente à rede. Mas seu melhor sentido não é fechar portas — é abrir a porta certa, e ajudar o paciente a não se perder depois dela. Porque saúde não é um evento isolado. É uma sequência de decisões.

Uma pessoa chega à unidade com uma queixa. Faz um exame. Recebe um encaminhamento. Passa por um especialista. Volta com um resultado. Às vezes, interna. Às vezes, recebe alta. A pergunta central é: quem acompanha essa trajetória?

Barbara Starfield colocou a coordenação entre os atributos essenciais da Atenção Primária porque um sistema de saúde não pode funcionar como um conjunto de serviços soltos. A unidade atende, o laboratório examina, o especialista avalia, a farmácia dispensa — mas cuidar não é somar procedimentos. É integrar informações e responsabilidades ao longo do tempo.

Sem coordenação, o paciente precisa recontar sua história a cada porta. O exame pode não voltar para quem solicitou. A alta hospitalar pode não chegar à equipe de referência. O prontuário vira registro, mas não cuidado. A Atenção Primária não precisa fazer tudo, mas precisa saber o que aconteceu — e ajudar a organizar o próximo passo. Esse é o papel estratégico do gatekeeper: não barrar acesso, mas coordenar o cuidado.

No Rio, a reforma da Atenção Primária avançou nessa direção ao posicionar a Atenção Primária como ordenadora da rede: território definido, equipe de referência, prontuário eletrônico, regulação articulada às unidades e acompanhamento por indicadores.

Um sistema centrado em procedimentos pergunta: quantos exames foram feitos? Quantas consultas foram abertas? Um sistema centrado nas pessoas pergunta outra coisa: o cuidado teve continuidade? A informação voltou? O paciente foi visto como trajetória, e não como episódio? Coordenação é isso — transformar serviços em rede, fazendo com que cada contato do cidadão aumente a capacidade de cuidar, em vez de obrigar o paciente a recomeçar do zero. Sem coordenação, temos serviços lado a lado. Com coordenação, começamos a ter rede.