Uma das respostas está em uma pergunta muito simples: você sabe quem é o seu médico de família? Nos sistemas de saúde que apresentam melhores resultados, a porta de entrada não é um hospital nem uma emergência. É uma equipe de Atenção Primária responsável por uma população definida.

No Reino Unido, por exemplo, quando uma pessoa adoece, procura primeiro o seu general practitioner — não qualquer médico, mas aquele que conhece seu histórico, acompanha sua família e coordena seu cuidado ao longo do tempo. Barbara Starfield demonstrou que os sistemas mais eficientes compartilham quatro atributos essenciais: acesso de primeiro contato, longitudinalidade, coordenação do cuidado e integralidade. Não basta oferecer consultas — é preciso organizar o sistema em torno das necessidades da população.

Mas o que significa dizer que uma cidade possui 80% de cobertura de Atenção Primária? Significa que oito em cada dez moradores têm uma equipe de referência, sabem onde procurar atendimento quando adoecem, possuem prontuário eletrônico e são acompanhados por profissionais responsáveis por seu território. Sem isso, existe apenas uma oferta fragmentada de serviços. Com isso, existe um sistema de saúde.

Em 2008, o Rio de Janeiro estava muito distante desse modelo: a cobertura da Estratégia Saúde da Família era de apenas 3,5%, com 63 equipes para mais de seis milhões de habitantes. A partir de 2009, a gestão começou a mudar essa realidade com a expansão das equipes, prontuário eletrônico, formação de médicos de família, avaliação de indicadores e coordenação da rede de atenção. Os resultados apareceram: a cobertura passou de 3,5% em 2008 para mais de 80% em 2025, enquanto o número de equipes cresceu de 63 para 1.387.

Mas cobertura, sozinha, não basta. Sem equipes completas, responsabilidade territorial e coordenação do cuidado, ela é apenas um indicador administrativo. Foi como médico de família em Manguinhos que Daniel Soranz aprendeu isso na prática: uma equipe que conhece sua população identifica precocemente gestantes de risco, crianças com vacinação atrasada e pacientes crônicos que interromperam o tratamento — ela deixa de esperar a doença chegar e passa a organizar o cuidado.

No fim, talvez a pergunta mais importante não seja quantas consultas um sistema realizou. A pergunta é outra: a população sabe quem é o seu médico de família? Quando essa resposta é "sim", normalmente estamos diante de um sistema que deixou de apenas atender pessoas e passou a cuidar delas.