Essa pergunta não é nova. Em 1971, o médico britânico Julian Tudor Hart formulou o que chamou de lei dos cuidados inversos: a disponibilidade de bons cuidados de saúde tende a variar inversamente à necessidade da população atendida. Trocando em miúdos, os grupos com maior risco de adoecer e morrer são, muitas vezes, os que encontram mais barreiras para acessar cuidados de qualidade. É uma formulação simples, mas brutal.

Ela acontece quando a oferta de serviços se organiza mais pela renda, pela informação e pela capacidade de pressão de determinados grupos do que pela necessidade sanitária real da população. Quem tem mais renda e mais informação encontra o sistema com mais facilidade. Quem vive em territórios vulnerabilizados, depende de transporte precário, mora longe dos serviços ou convive com vínculos frágeis de trabalho tende a chegar depois — ou a não chegar.

Quando atuou como médico de família em Manguinhos, Daniel Soranz aprendeu isso muito cedo. Foi no território que a desigualdade deixou de ser uma abstração e virou experiência concreta: criança com vacina atrasada, hipertenso sem acompanhamento, gestante com pré-natal interrompido, tuberculose convivendo com pobreza e moradia precária.

Nesses contextos, a desigualdade em saúde não se explica apenas pela falta de serviço. Ela se explica pela ausência de uma organização do cuidado capaz de chegar antes — antes da urgência, antes da internação evitável, antes do agravamento da doença crônica. É exatamente por isso que a Atenção Primária à Saúde é tão estratégica: não é apenas a porta de entrada do sistema, é o instrumento mais eficaz para enfrentar a lei dos cuidados inversos, porque organiza o cuidado a partir da necessidade, e não da capacidade individual de disputar acesso.

Quando uma equipe conhece o território, acompanha famílias ao longo do tempo e coordena o percurso do usuário pela rede, ela corrige uma injustiça estrutural e leva mais cuidado a quem mais precisa. Essa foi uma das lógicas centrais da expansão da Saúde da Família na cidade do Rio de Janeiro.

Política pública justa não é a que distribui cuidado de forma uniforme. É a que distribui mais cuidado onde a necessidade é maior. A pergunta correta não é apenas se o sistema está atendendo — é se ele chega primeiro a quem mais precisa. Se não estiver, a lei dos cuidados inversos continua operando. E quando isso acontece, a desigualdade deixa de ser apenas social; ela passa a ser uma desigualdade de chance de viver.