Alguns diriam: número de leitos. Outros: cobertura vacinal, taxa de mortalidade infantil, gasto per capita em saúde. São indicadores muito importantes. Mas nenhum deles captura, sozinho, o que realmente queremos saber: a população está vivendo mais e melhor? Para o deputado federal e médico Daniel Soranz, a resposta está sempre na expectativa de vida.

Ela não mede o que o sistema produziu. Mede o que mudou na vida das pessoas. Consultas e procedimentos dizem o que o sistema fez, não necessariamente o que mudou na saúde das pessoas — e a pandemia tornou isso dolorosamente evidente.

Nos EUA, país com tecnologia de ponta e hospitais de referência mundial, a expectativa de vida caiu de 78,8 anos em 2019 para 76,4 em 2021: dois anos de vida perdidos em vinte e quatro meses. Na cidade do Rio de Janeiro, a trajetória foi parecida — de 74,5 anos em 2019 para 71,5 em 2021, três anos de vida perdidos. Esses números não são abstratos: representam mortes antes do tempo em famílias reais, em territórios reais, entre pessoas que já tinham menos acesso a tudo.

A recuperação veio. Na cidade do Rio, a expectativa de vida chegou a 76 anos em 2023, o maior valor da série histórica.

A expectativa de vida é resultado de muitos fatores — renda, educação, saneamento, segurança alimentar, vacinação, ambiente urbano, controle de doenças crônicas. Mas existe um fator com capacidade rara de atravessar vários desses determinantes ao mesmo tempo: a Atenção Primária à Saúde. Não porque ela resolva tudo sozinha, mas porque chega antes — antes da internação evitável, antes da complicação do diabetes mal controlado, antes do AVC no hipertenso sem acompanhamento, antes da queda da cobertura vacinal.

Em 2008, a cobertura da Saúde da Família no Rio era de apenas 3,5%, a menor entre todas as capitais brasileiras — o município tinha 63 equipes para uma cidade de mais de 6 milhões de habitantes. A partir de 2009, a gestão de Soranz começou a mudar isso: abriu unidades e reorganizou o modelo, com território definido, equipe de referência, avaliação de indicadores e formação profissional contínua.

Em 2013, a cobertura alcançou mais de 40%. Em 2015, 60%. Hoje, cerca de 80%. No mesmo período em que essa estrutura foi sendo construída, a expectativa de vida no Rio também avançou — e essa é a régua que, para Soranz, deve orientar as decisões de quem governa a saúde: essa organização do cuidado está permitindo que as pessoas vivam mais, melhor e com menos desigualdade?