Parece uma pergunta administrativa. Mas é uma das perguntas mais importantes da saúde pública: o que uma unidade de Atenção Primária deve ser capaz de resolver? Quando o sistema não define claramente o que deve entregar, a desigualdade aumenta — uma unidade faz, outra não faz; uma equipe resolve, outra encaminha; um usuário sabe o que pode cobrar, outro aceita a negativa como se fosse inevitável.
Uma resposta importante a esse problema foi a publicação, no Rio de Janeiro, da primeira Carteira de Serviços da Atenção Primária, em 2010, na gestão do prefeito Eduardo Paes. A ideia era simples: dizer com clareza quais ações e serviços deveriam estar disponíveis — não como lista burocrática, mas como compromisso público. Vacinação, pré-natal, doenças crônicas, saúde mental, saúde bucal, testes rápidos, curativos, pequenos procedimentos, visita domiciliar e coordenação do cuidado.
Quando esses serviços estão definidos, a unidade deixa de ser apenas porta de entrada. Passa a ser um lugar de resposta. Um estudo com 17.202 equipes de Saúde da Família comparou a oferta de ações previstas na Carteira de Serviços do Rio com os demais grandes centros urbanos: as equipes do Rio tiveram desempenho superior em 10 das 14 ações analisadas. A implantação de prontuário eletrônico chegou a 96% no Rio, contra 34% nos demais grandes centros e 14% no Brasil.
Gestão muda capacidade de resposta. Quando há carteira, protocolo, prontuário, formação e monitoramento, a unidade passa a oferecer mais — e oferecer mais na Atenção Primária significa evitar deslocamento desnecessário, reduzir pressão sobre urgências e aumentar a resolutividade perto da casa das pessoas.
A Carteira de Serviços não é só um documento técnico. É tecnologia de gestão pública: diz à equipe o que se espera, diz ao gestor onde estão as lacunas, diz à população que o serviço público tem responsabilidade definida. Integralidade não pode ser apenas um princípio bonito do SUS — precisa virar prática verificável.
A pergunta que importa não é apenas se existe uma unidade no território. É se essa unidade tem equipe, estrutura e responsabilidade para resolver os principais problemas de saúde daquela população. Sem isso, há presença física. Com isso, há Atenção Primária de verdade.